Houve uma época (para ser mais preciso, desde a metade do ano passado até o começo deste ano) em que eu basicamente passava dias seguidos apenas ouvindo aos discos da ECM Records (Editions of Contemporany Music). Não sei explicar muito bem em palavras, mas a música que saia dos discos da gravadora simplesmente parecia ser o que eu passei a minha vida procurando, e de cara não consegui mais parar de ouvir. Entre algumas pessoas que estão mais por dentro da gravadora se discute algo como o "som da ECM". Este tipo especifico de som é difícil de descrever, mas qualquer um que ouvir uns três ou quatro discos, independente da época que foram lançados ou do artista em questão, irá notar que realmente existe um "som", um tipo de clima que permeia todos os lançamentos da gravadora. Para explica-lo já foram usadas inúmeras metáforas (derivadas principalmente do design dos discos, minimalistas e com imagens evocativas) , quase todas abstratas e propensas a várias interpretações, como: "observar cubos de gelo derretendo", "olhar para paredes brancas", "ver o mundo em cores manchadas", e por aí vai. quarta-feira, 15 de setembro de 2010
O som mais belo depois do silêncio
Houve uma época (para ser mais preciso, desde a metade do ano passado até o começo deste ano) em que eu basicamente passava dias seguidos apenas ouvindo aos discos da ECM Records (Editions of Contemporany Music). Não sei explicar muito bem em palavras, mas a música que saia dos discos da gravadora simplesmente parecia ser o que eu passei a minha vida procurando, e de cara não consegui mais parar de ouvir. Entre algumas pessoas que estão mais por dentro da gravadora se discute algo como o "som da ECM". Este tipo especifico de som é difícil de descrever, mas qualquer um que ouvir uns três ou quatro discos, independente da época que foram lançados ou do artista em questão, irá notar que realmente existe um "som", um tipo de clima que permeia todos os lançamentos da gravadora. Para explica-lo já foram usadas inúmeras metáforas (derivadas principalmente do design dos discos, minimalistas e com imagens evocativas) , quase todas abstratas e propensas a várias interpretações, como: "observar cubos de gelo derretendo", "olhar para paredes brancas", "ver o mundo em cores manchadas", e por aí vai. terça-feira, 14 de setembro de 2010
A Organização Segundo Webern

Dias atrás consegui a partitura das "Variações Para Piano" Op.27 do austríaco Anton Webern (1883-1945) e passei umas boas horas observando as estruturas internas daquela música considerada muito cerebral, esparsa e inaudível para muitos. Interessante notar que todas estas conclusões sobre a música de Webern ao mesmo tempo que são um grande engano também podem ser uma verdade sob vários pontos de vista.
Provavelmente o compositor mais interessante da "Segunda Escola de Viena", Webern cultivava um tipo de música extremamente breve e simetricamente muito bem organizada. Perder alguns segundos de música normalmente é perder todo o significado expressivo de movimentos inteiros, visto que tudo era tão bem compactado, e tanto o som quanto o silêncio eram distribuídos de forma igualitária no espaço.
Usando a técnica de doze sons elaborado por Schoenberg, Webern pode dar asas a sua imaginação e criar a música que sempre quis, uma que estivesse livre das leis tonais que regiam a música desde a época medieval até os seus dias, mas também uma que fosse um reflexo da organização presente na natureza. Em relação a sua "Sinfonia" Op.21, Webern comparou a série ao "urpflanze" de Goethe, uma planta primordial, da qual todos os componentes de um organismo inteiro são derivados.
O primeiro movimento da sinfonia apresenta duas partes que são repetidas, derivadas de cânones de um tema do qual a versão reversa do mesmo está presente. A série em si é organizada de um modo a apresenta todos os intervalos possíveis dentro de uma oitava (A-F#-G-Ab-E-F-B-Bb-D-C#-C-Eb), caso repartirmos ela em dois conjuntos de seis notas, podemos notar que o segundo é a transposição reversa do primeiros por um trítono. Pelo fato de que o primeiro e o último intervalo presentes nesta série são complementares (sexta maior e terça menor) as duas últimas notas de qualquer alteração da série serão sempre iguais as duas primeiras.
A obsessão por um tipo de expressão super compactada e derivada organicamente de motivos breves tem seu ápice no "Concerto Para Nove Instrumentos" Op.24. Aqui Webern criou provavelmente sua obra mais concisa e organizada, tudo que é supérfluo e desnecessário é retirado. O que resta é uma música transparente e sonoramente equilibrada entre o som e a falta dele.
A série aqui é dividia em quatro grupos de três notas, todas derivadas do primeiro conjunto:
[B-Bb-D] [Eb-G-F#] [G#-E-F] [C-C#-A]
Tomando o primeiro conjunto como o original, o segundo seria o retrógrado inverso, o terceiro o retrógrado, e o quarto o inverso. Podemos analisar da seguinte maneira também: tomando a nota B como a primeira das doze (B=0) numericamente falando a série seria assim: 0,11,3,4,8,7,9,5,6,1,2,10.Como exemplo, o terceiro conjunto (9,5,6) é o primeiro (0,11,3) ao contrário (3,11,0) e transposto por 6 (3+6=9, 11+6=5, 0+6=6).
Tentativas de analisar a obra como um todo tem causado grandes dificuldades em especialistas e teóricos, visto que, pelo fato de Webern usar sistematicamente conjuntos de três notas que se alteram entre si por meio de variações internas, a idéia da série invade todo o conjunto estrutural da obra como um todo, necessitando assim graduais reavaliações de linhas de pensamento. O esparso e silencioso segundo movimento em especial, é quase que uma fonte inesgotável de segredos no qual dias podem ser passados tentando desvenda-los.
Ao trabalhar com conjuntos de notas e organiza-las de modo a tudo possuir uma maior lógica e coerência interna, Webern se aproximou, como dito anteriormente, de uma arte que fosse um prolongamento da natureza, que segundo o próprio é baseada em idéias de "tema e variações":
"A raiz nada mais é que o caule, o caule nada mais é que a folha, e a folha nada mais que a flor: variações sobre uma idéia"